Annik Salmon transforma o circo em afeto, memória e gargalhada no enredo do Arranco para 2026
- Fala Galera Oficial
- há 4 dias
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Por Renata Campagnuci
O Arranco do Engenho de Dentro aposta, mais uma vez, em um enredo sensível, potente e profundamente brasileiro para o Carnaval de 2026. À frente da criação está a carnavalesca Annik Salmon, única mulher assinando um carnaval na Marquês de Sapucaí e conhecida por narrativas que colocam as mulheres, a ancestralidade e emoção como vetores fundamentais em seus enredos. Em entrevista ao site Fala Galera, Annik fala sobre o impacto afetivo do novo trabalho, inspirado em histórias reais do circo brasileiro, e revela como a alegria, a gargalhada e o feminino se tornam ferramentas de resistência, memória e cura no desfile do Arranco do Engenho de Dentro.
“O enredo todo foi pensando para tocar o público. Eu gosto disso, gosto de resgatar histórias do nosso Brasil, histórias de personagens do nosso Brasil que muitas vezes não são conhecidas e que são fundamentais para contar quem somos enquanto nação.”
Segundo a carnavalesca, a concepção do enredo nasceu a partir do contato com a trajetória de Maria Eliza, personagem central da narrativa, descoberta por ela por meio de um documentário realizado por sua neta.
“Eu descobri a história da Maria Eliza, que fazia o Palhaço Xamego, pelo documentário “Minha avó era Palhaço” que a neta dela, Mariana Gabriel, produziu e dirigiu. Hoje a Mariana é a palhaça Birota, palhaça no Feminino, porque na época em que Maria Eliza atuou como Palhaço Xamego, em meados do século XX, não existia o feminino do palhaço.”
Annik destaca que Maria Eliza foi pioneira em um universo dominado por homens, precisando esconder sua identidade feminina para exercer a arte.
“Ela foi essa primeira mulher com a coragem e a ousadia de ser um palhaço. Só que essa vida não era fácil, ela tinha que enganar o público e se vestir de homem, fingir que era um homem ali fazendo aquela encenação. É claro que interpretar é, de certa forma, um fingir para o público, mas nesse caso ela era forçada, para conseguir exercer a arte da palhaçaria. E o Xamego era o principal no espetáculo do Circo Guarany. Agora, imagina, naquela época, se ela assumisse que era mulher?”
A história, no entanto, vai além do picadeiro. Para a carnavalesca, o enredo também fala de maternidade, perdas, resistência e amor pela arte.
“É a história de uma mulher que lutou, que além de ter essa paixão pela arte, carregou todas as suas faces com ela no circo, mesmo que picadeiro ela precisasse ser homem. No avesso do palhaço tinha uma mulher que era mãe, uma professora que educou os filhos, que cuidou da família,uma mulher forte que perdeu vários filhos e que por mais que a gente não retrate isso no desfile, é importante as pessoas saberem que esse luto fez parte da vida dela. E mesmo com tudo isso ela conseguiu manter sua alegria e o sorriso que acompanhou ela por toda vida, mesmo depois que a lona desbotou e o circo Guarany foi vendido.”
Mesmo com o fim do circo itinerante tradicional, o legado permaneceu vivo.
“Maria Eliza fez do circo a vida dela e mesmo depois do fim do Circo Guarany, a arte circense nunca saiu da vida dela. Sua história inspira a vida de muitas mulheres que querem seguir na arte da palhaçaria. Muita gente tem conhecido a história da Maria Eliza por conta do enredo do Arranco e com isso eu espero que as pessoas se inspirem também na grande mulher, na mãe incrível e na pessoa inspiradora que Maria Eliza foi.”
Ao conversar com as gerações seguintes da família, Annik se emocionou com a forma como essa história sempre foi conduzida com alegria.
“Conversando com a neta, Mariana, e com a filha, Daise,durante o processo de pesquisa e elaboração do desfile, eu e o Artur percebemos como a família toda sempre levou tudo com alegria. Ambas são casadas, Mariana com o Juan e a Daise com o Salim e todo mundo é apaixonado por essa história, leva tudo com o maior orgulho. Então, eu acho que o legado desse enredo é a gente rir, a gente gargalhar e sempre pensar que quando a gente faz da tristeza um sorriso a vida é mais leve, tem mais esperança em dias melhores. Se a gente conseguir pegar um pouquinho disso, com o carnaval e no carnaval de 2026 do Arranco, a vida vai ser mais feliz!”
Para a carnavalesca, o riso é mais do que entretenimento: é cura.
“A gargalhada é a cura de todos os males. E o palhaço, historicamente, é essa figura que prova o riso, que subverte a seriedade e a tristeza de um mundo que as vezes nos adoece. Quando a gente transforma um chão ancestral de Zé Espinguela em um grande circo, a gente ganha força para soltar essa gargalhada de dentro da alma. Eu acho que essa é a solução para uma vida feliz é tentar tirar proveito de tudo, mesmo quando a lona desbote, as flores sequem, as lágrimas molhem os nossos rostos ou até quando os planos não acontecem. É levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima e não deixar o samba morrer e a gargalhada acabar!”
Ela acredita que o primeiro contato emocional do público acontece pelo samba.
“Nosso samba é bastante ouvido e elogiado por ser alegre, para cima, que permite a gente cantar gargalhando. As pessoas estão elogiando muito e mesmo que ali ainda não tenha o contexto visual, a Pâmela e o Tinoco entregaram muita emoção, principalmente ela, uma mulher cantar a obra e a alegria de outra mulher. O folião está ouvindo e tentando entender o que vai acontecer no desfile. Nisso osamba acerta muito a proposta do enredo: ser alegre e emocionar!”
O desfile também aborda a presença negra no circo e no Carnaval, ressaltando histórias pouco conhecidas do Brasil.
“Quando a gente pensa em circo, sempre vai para as referências europeias dos grandes espetáculos que vemos no audiovisual, mas quando falamos da história do Brasil, nos deparamos diversas histórias negas que muitas vezes não são contadas. E essa é uma dela. O Circo Teatro Guarany surge com João Alves, pai da Maria Eliza, poucos anos após a abolição da escravidão. Ele e dona Brigida, mãe da Maria Eliza, erguem esse sonho do Guarany e vão percorrer vários lugares. A história é incrível. Tem documentários, e vários registros de que o circo lotava bilheteria. Era um circo tradicional e tinha animais quando podia ter. Alguns fatos curiosos ao longo da história do circo deixam o enredo ainda mais divertido: os números que depois o Palhaço de Xamego assumiu tinham animais como galinha, cachorro e até um macacopara quem o palhaço contava piada. Maria Eliza se casou e seu marido junto com ela tocava o circo, assim como seus pais. Hoje sua filha e neta, com seus maridos, seguem firmes divulgando o legado da família. São essas coisas que vão tornar o desfile ainda mais emocionante”. finaliza a carnavalesca



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